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Cavaleiro: Sou servo apenas de meu rei e minha rainha, demônio, e de deus em suas alturas. Não julgas que confiarei na palavra de um lacaio de satanás, que certo está a te inspirar essas palavras de aspecto dócil mas intenção nefasta.

Voz misteriosa: Tens mais pertinácia do que supunha possuir tua raça, messire. A maioria dos homens se põe em desabalada carreira ao ouvir a primeira vez minha voz. Mas lembro-te novamente que é necessário mais do que esperança para vislumbrar meu semblante. Não te deterei em tua marcha, já que queres prosseguir, mas fica avisado: Tua fé na cruz não te salvará a alma.

Cavaleiro: Demônio!

Narrador: O cavaleiro prossegue a jornada, precipitando-se cada vez mais num fosso de escuridão e abandono. Não há volta, ele começa a sentir, e fios de desespero, como tenazes, começam a remover, pedaço por pedaço, o resto de confiança que conseguira construir ao longo de sua jornada.

A fome e o cansaço mais e mais se intensificam. Um medo avassalador lhe afoga a alma quando a última réstia de luz se vai, deixando-o entregue apenas ao seu profundo desalento.

Ele sabe que não há como prosseguir.

Então...

Voz misteriosa: A tua jornada é tão vã quanto a minha, valoroso errante. Sabias muito bem que, ao entrares aqui, as provações seriam além de qualquer força. Vai-te, levando no coração a conquista de uma valorosa vitória.

Cavaleiro: Sim, minha fome e minha sede me matam, e minha agonia se faz maior do que eu imaginava. Mas tuas palavras me bastam para adquirir a confiança em minha tarefa, e saber que extirpar teu mal seria uma recompensa além de todo imaginável. Comerei os demônios que mandares em meu encalço, e usarei minha loucura para fazer tuas feridas sangrarem com o ódio que grita em minha alma.

Voz misteriosa: Pois bem, não te deterei.

Narrador: Em absoluta desesperança ele vai, caminhando sem orientação em meio a uma escuridão irremovível. Sem ter o que ver, como que imerso num mar de insanidade cega, ele prossegue cambaleante e debilitado.

Cavaleiro: Oh, santo deus! Já me sinto febril, e minha cabeça põe-se a divagar loucuras. Não sei o que penso. Essa luz que vejo não pode ser real, é obra tua, demônio, que está a iluminar o caminho até tua boca, para me devorar!

Sim, tu iluminas meu caminho, me guias para tua boca escancarada. Sentes o ódio que nutro por ti, criatura miserável? Minha agonia não te provoca, não te repugna? Gostaria de gritar meu ódio a plenos pulmões.