Em 1997 me deparei com uma propaganda de um concurso de quadrinhos e falei com meu amigo Marcelo Gomes, que tirou do chapéu o roteiro para “O Diálogo”.
Com o roteiro na mão o resto seria fácil, certo?

O concurso tinha algumas limitações e exigências:
– Os desenhos deviam ser em folhas A3, mas eu nunca tinha desenhado nada completo em folhas maiores que A4. Na verdade eu costumava desenhar em páginas que eram metade de um A4.
– O número máximo de páginas era 4. Nosso roteiro era suficiente para umas 8 páginas.

Era uma época em que a internet não era um recurso tão abundante. Pesquisar referências nela era um trabalho decepcionante. Encontrei fotos de armaduras na web, mas cheguei a comprar um livro de referências para desenhar cavalos. Fora isso, contei com o Gomes para ser o rosto do cavaleiro, e com meu irmão para fazer poses.

Outra loucura é que resolvemos fazer uma das vozes do diálogo em uma fonte mega rebuscada. Naquela época não editávamos os quadrinhos no computador (alguém editava?), então tive que escrever a mão todo aquele texto. Na correria para entregar os desenhos para o concurso até o Gomes pagou de letrista/arte-finalista.

Enviamos os originais pelo correio. Tudo que nos restou foi aquele sentimento de um trabalho legal finalizado, uma fotocópia em tamanho A3 da história e uma carta de “valeu pela participação” do tal concurso (carta essa que não sei onde foi parar).

Eis que 17 anos depois eu consigo escanear aquela fotocópia…
Alguma edição e “reletreiramento” e o resto é… história (em quadrinhos).

↓ Transcript
O Diálogo

Arte: André Pinto
Roteiro: Marcelo Gomes

Cavaleiro: Em nome de Nosso Senhor, eu encontrarei a fera e a derrotarei. Dai-me forças meu Deus, para que eu possa abatê-la com teu cetro e minha vontade.

Voz misteriosa: A tua vontade de nada te adiantará, aventureiro. Confia apenas no teu Deus, e reza para que ele não te tenha esquecido.

Cavaleiro: Não pensas que te ouvirei, besta do inferno. Tuas artimanhas são bem conhecidas, e não são dignas de apreço. Tens a língua tão viperina que a criança inocente vira assassina, e a mulher fiel atraiçoa o esposo, quando te ouvem.

Voz misteriosa: Sabe que não guardo grande apreço pelos teus, gente da tua laia me incomoda ao enfado. Mas não almejo teu mal, messire. Todos os malefícios que se atribuem a mim são mentira e equívoco. É meu grande desejo que leves aos teus as minhas palavras de culpa e perdão, e que não mais provocarei, embora nunca o tenha feito, a homens e magos.